Eu vivo de uma forma intensa, peculiar. Suaves batidas na janela, pequenos sussurros dentro da minha mente, me pedindo para parar. Mas parar o que, exatamente? Eu sei que quero mais, quero me perder e poder viajar através do tempo e espaço. Quero ser perfurada pelos espinhos e iluminada pelas estrelas.
As batidas na porta são incessantes. O que eles querem? Ah, Lina, se você soubesse o quanto me salva. Minha alma se tornou sua no momento em que te conheci.
Algumas partes são estranhas de entender, mas com o tempo tudo se encaixa. Você nota. É impossível não notar, os sinais estão escancarados. Você grita e eles podem até ouvir, mas quem realmente vai se importar?
Parei para analisar e talvez eu esteja delirando. Mas estamos todos apaixonados. Eu poderia cavar a minha própria cova e enterrar todos esses sentimentos. Eu poderia matar a parte de mim que me torna vida, eu poderia caçar todos aqueles que me quebraram. Tantas coisas poderiam acontecer.
Sabe o que me inspira? Ah, é tão fácil de decifrar. Sabe o que me assusta? Eu poderia fazer coisas horríveis sem pensar duas vezes e me sentir bem, mas isso é apenas um detalhe. Certas coisas não estão autorizadas a serem devidamente explicadas, as entrelinhas estão aí.
Você gosta? Você se assusta? Minha doce Pam, as coisas que você faz eu sentir são mágicas, eu não quero parar. Me sinto acolhida, protegida. Um abraço que jamais tive.
Estamos livres para odiar e amar, e o equilíbrio é perfeito, você não vê? Não consegue enxergar essa merda? Tudo o que você odeia hoje, já amou antes e vice e versa. Não é irônico?
Então por que você mente tanto para todos, inclusive para si mesmo? Do que está fugindo, girassol? Eu sei o que você esconde atrás desse sorrisinho falso e patético. Eu sei os segredos que podem destruir qualquer um.
Já parou para pensar que pequenas atitudes, simples, relativamente inocentes, podem acabar com milhares de vidas? Segredos matam. O que o seus fariam se fossem revelados?
Você se ama, odeia ou apenas se atura? Eu não quero morrer, mas eu poderia. E eu gosto dessa minha versão. Eu gosto da liberdade de apenas ser.
Então farei um favor a todos vocês. Cavarei uma cova para esconder todas as palavras não ditas, os choros noturnos, os gritos de socorro, a sua cena patética implorando para querer viver. E então todos podem voltar às suas vidas mesquinhas, fingindo que são incríveis, invulneráveis.
Mas quer saber um segredo? Quando você morrer, nada disso vai importar. Então seja livre agora enquanto não é tarde demais. Afinal, quem se importa? Dois dedos dentro da boca e um suspiro profundo. Agora você está livre para viver uma merda de vida insignificante, mas que pode mudar a vida de alguém, então pense nisso.
Eventualmente, você vai morrer. Não deixe que seja em vão.
Por muito tempo vaguei por entre fantasmas, aprisionada e sem saber para onde ir. Por dias chorei incessantemente, sem fôlego, sem paz, por um mundo que eu já não pertencia. Meses se passaram. Anos. E, finalmente, hoje posso dizer que ainda estou no mesmo lugar. Presa, sem saída. Estagnada.
O corpo aprende a rejeitar aquilo que não é bom para ele, mas como você o ensina a gostar de algo que te mata? A respiração se torna algo pesado e seco. Sua voz há muito tempo não sabe o que é emitir um singelo som. Você já não passa de um fantasma vivendo a vida de alguém que já não está mais entre os vivos. E como você poderia explicar isso? Como alguém enxergaria o que há dentro de você, quando você mesmo é incapaz de se expressar?
Seus olhos já não brilham mais, opacos, como se não houvesse uma alma por trás deles. Você coexiste. Não consegue diferenciar o sonho da realidade. A sua vida, que um dia fora um pesadelo sombrio e maculado, hoje não passa de sonhos… Aqueles que você nunca pode viver e experimentar.
Tudo o que você pode fazer agora é sonhar, porque a sua realidade está quebrada. Você está quebrado. E se um dia você ousar acordar, tudo o que verá serão cinzas e solidão.
Porque ninguém é capaz de ficar perto de alguém que vive na fantasia. A sua realidade deixou de ser real no dia em que você decidiu se entregar, pois a dor era intensa demais para aguentar, então você foi pra longe, bem longe…
Hoje não há diferença entre a realidade e a fantasia para mim. Estou presa dentro da minha própria cabeça, por entre minhas próprias lembranças e sonhos. Tudo o que um dia eu quis ser. Se há algo que possa me salvar, eu desconheço. Se há um modo de desligar tudo e voltar a viver de uma maneira saudável, não vejo como. E se você vive assim também, eu sinto muito.
Não há uma alma boa que conheça a verdadeira face de si mesma. E não há esperança para quem vive entre os fantasmas.
Ela estava longe, bem longe, em um lugar onde a luz não alcançava, onde a felicidade era desconhecida.
Muitas pessoas conheciam aquele lugar. Algumas apenas visitavam de vez em quando, outras viviam ali… E havia os que nele presos estavam. Ele não tinha um nome próprio. Cada ser que nele habitava o chamava de um jeito.
Ela o chamava de pássaro.
Suas visitas, no começo, eram raras. Então se tornaram mais regulares. Até que, por fim, decidiu que nesse lugar ficaria. Era sua nova casa, o pássaro.
No começo, ele realmente era um pássaro para ela. A escuridão em forma de um corvo belo e fosco, com um bico enorme e olhos branco-leitosos. Ele a confortava sempre que aparecia, e ela pouco a pouco, se entregou.
Mas por que ela se entregou assim, tão facilmente?– Você me pergunta. Bom, essa é uma questão que somente ela poderia te responder e, como eu disse, ela está muito longe, você mal a reconheceria. Talvez ela até tenha virado o pássaro de alguém.
Ela, por muito, muito tempo, lutou. E não foi fácil. Coisas ruins aconteciam durante os intervalos. Coisas que ela faria de tudo para esquecer. De tudo mesmo. Até que…
O pássarojá não era mais um pássaro e o mundo que ela conhecia, já cinza e infeliz, se tornou escuro e frio, muito frio. Por um tempo ela não quis aceitar aquele destino, não queria estar ali, longe de tudo que amava. Mas ela aceitou, como todas as pessoas que aceitam seus miseráveis destinos quando finalmente cansam de lutar pela própria felicidade.
Ela se adequou bem ao pássaro. Depois de alguns dias chorando interminavelmente. Gritando. Berrando. Se automutilando. Ela finalmente aceitou que aquela seria a sua vida. E talvez fosse eterna.
Hoje, ela está ainda mais longe. Não há cor ou brilho. Não há um sopro morno ou um raio de sol. Ela enterrou todas as coisas boas que ainda jaziam dentro dela. Enterrou bem fundo, onde jamais fossem resgatadas novamente. Não há mais amor ali. Não há vida.
Ela, inutilmente, lutou por anos para, no fim, se tornar o que nunca quis ser: sua própria dor. Crua, sombria… Vazia.
E ela vaga por aí. Sem rumo. Esperando para se tornar o próximo pássaro de alguém que desistiu do amor.